Há algum tempo que venho refletindo sobre o boom de
moralismo e “bom-mocismo” que foi pulverizado por todos nos e-mails e redes
sociais. Todos gostam de compartilhar suas opiniões políticas, sociais, antropológicas,
filosóficas ou qualquer coisa, como se aquela frase feita, aquele powerpoint ou
aquela foto definissem exatamente o seu comportamento moral e ético perante aos
olhos da sociedade (ou até de Deus!). Acontece que historicamente a maior parte
da população brasileira tem se comportado de modo passivo e egoísta (ok! Estou
sendo taxativo e generalista) e quase nunca nos movemos para conquistar evoluções
sólidas dentro da estrutura social. O brasileiro é sim passivo, arrogante e
egoísta em sua maioria, somos sombras de corrupção, somos Gérsons nas mais extremas
camadas da formação moral dos indivíduos. Tudo bem, não vou chover no molhado
de novo...
O que tem me divertido muito ultimamente é observar o
comportamento virtual e o real de pessoas mais próximas de mim. Nos facebooks
ou salas de discussões nós quase sempre trabalhamos nossa luz, ou seja, aquilo
que temos de positivo, nossos pensamentos progressistas, éticos, ilibados. Mas
quando estamos dentro da esfera individual é que a grande sombra do brasileiro
se manifesta. É no escurinho do cinema, no anonimato das multidões, nas
possibilidades de não sermos notados.
Aconteceu-me algo extremamente pitoresco numa disciplina que
peguei na minha pós-graduação que acho válido comentar aqui. Foi levantada uma
discussão exatamente sobre o comportamento (ou mau comportamento) do povo soteropolitano
– aqui vale a pena ressaltar a arrogância da classe média ou pseudo-burguesa
num senso de exclusão absurdo – levando-se em consideração diversos aspectos.
Um deles foi o trânsito. “Como o baiano é agressivo e mal educado no trânsito!”
– eram as frases reverberadas na sala. Conversa vai, conversa vem, um colega
que havia morado no Canadá manifestou-se falando a ordem do trânsito e do
transporte público das cidades onde ele morou. Depois relatou sobre a educação
do povo em shoppings centers que, ao finalizar seu lanche, imediatamente
retiram a bandeja e põem numa lixeira deliberadamente, coisa e tal. Finalizando
a aula tive a oportunidade de pegar uma carona com esse mesmo colega até a
minha casa. No trajeto preguei no banco do carona: eram cortadas em cima de
cortadas, trocas de faixas sem sinalização, coladas nos fundos dos carros da
frente! Uma verdadeira aula de autoritarismo no trânsito. Minha cabeça
explodiu!! Como que aquele bom samaritano que acabara de verbalizar os defeitos
dos conterrâneos e enaltecer a cultura polida dos canadenses jogou todo seu
discurso no lixo em minutos?!Há algum tempo vi uma entrevista de Rodrigo, vocalista do Dead Fish, onde ele dizia que não acreditava na política nos moldes que conhecemos, mas sim na micropolítica – ou seja, aquela que praticamos diariamente e que tem um impacto direto no mundo ao nosso entorno. E acho que esse é o ponto: o que fazemos quando ninguém está olhando? O que fazemos quando não há interesse de recompensa? Então continuaremos a postar mensagens de protesto e desrespeitar qualquer um no nosso entorno em nome do nosso conforto e bem estar? Continuemos então a colocar o rei da nossa barriga na frente do interesse coletivo, sejamos moralmente podres e mal-educados. Assim sendo, eu paro meu carro na vaga de idoso e deficiente, pego meu smartphone e compartilho aquela foto exigindo que um político cumpra com suas obrigações e pare de me roubar.


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